A <i>selfie</i> de Assis
A moda das selfies veio para ficar. Mesmo que pareça surpreendente tanto entusiasmo com auto-retratos – que é das formas mais antigas de representação humana –, a verdade é que parece não haver quem resista a tirar fotos a si próprio nas mais diversas circunstâncias.
Sempre na esquerda moderna, o PS também aderiu à moda. Primeiro, com a super-espontânea selfie de Seguro com Costa, Assis e Martin Schultz, rodeados de jovenzinhos empreendedores, a que o Público até deu honras de primeira página. Agora, nos seus novos cartazes de campanha eleitoral.
Substituindo a «Mudança» em letras garrafais da pré-campanha, surgem agora as fotografias-disfarçadas-de-selfie de Assis com os seus companheiros de lista, sorridentes e tão mas tão espontâneos que até foi preciso recorrer a um programa de computador para acrescentar lá atrás as cabecinhas de três candidatos.
«Confiança na mudança», diz a legenda da selfie falsa do PS. O que não deixa de ter graça, se pensarmos que nos pedem que confiemos naquelas pessoas, que se juntaram para fingir que tiravam um auto-retrato, que nem se esforçaram por disfarçar que é falso.
Das duas, uma: ou a empresa de comunicação que o PS contratou para estas eleições teve um momento de fraqueza, ou já desistiram de disfarçar que a mudança prometida é mesmo a fingir.
Assis, conhecido pelas suas claríssimas intervenções a defender o pacto de agressão, a austeridade e os entendimentos do PS com o Governo, há-de ter sido aconselhado a moderar-se pelos estrategas de uma campanha que tem como grande objectivo disfarçar o compromisso com a política de direita, à espera que o descontentamento lhes faça cair no colo milhões de votos.
A arrogância que os fez acreditar que os portugueses não perceberiam que a fotografia é uma montagem, é a mesma que os faz pedir ao povo que acredite na «mudança», jurando na mesma fidelidade ao pacto de agressão. Quem insulta assim a inteligência dos que vivem do seu salário e da sua reforma neste país assolado pelas políticas das troikas, não merece nenhuma confiança.